quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Ir ao Alaska e voltar em cima de uma 110cc. Parece loucura, mas tem gente que fez.


Não é miragem, nem mesmo montagem. O "louco"... digo, motociclista Flávio Kenup, morador de Teresópolis no Rio de Janeiro já encarou uma viagem no início de 2005 de mais de 15.000 km a bordo de uma 100 cilindradas, indo até a Terra do Fogo na Argentina. Colocando muito motociclista de moto grande que tem medo de viajar no bolso.

Ao ler sobre esta gigantesca aventura ainda me deparei com um desafio maior ainda e que ele realizou em 2007, em cima da "Poderosa", a sua Traxx 110cc, uma viagem que no mínimo eu classifico como fantástica. ele rodou até o Alaska, vencendo sol, chuva, granizo, muito frio, quase 5.000 metros de altitude no Peru, os desafios da língua e o principal, a solidão.

Em 8 meses de viagem, rodando mais de 300 km por dia, ele conta o quanto de lindas paisagens ele viu, o quanto de gente e culturas diferentes ele conheceu nessa viagem. Espero que minha esposa não leia este  post (risos), mas tenho muita vontade de viajar a bordo da minha Super 100, não precisa ser tão longe.

Estou incluindo o depoimento dele na postagem para vocês perceberem a emoção em suas palavras e tentar imaginar um pouco da aventura que ele passou, pois por mais que eu escreva não chegará nem perto.

Viagem ao Alaska (link da aventura)

"Flávio Kenup realizou uma viagem de moto de 110cc partindo de Teresópolis/RJ até o Alaska. Essa grande aventura aconteceu de 1 maio de 2007 a 17 de janeiro de 2008, totalizando 8 meses e 17 dias com 57 mil km rodado. Confira a décima segunda parte do Diário

Apesar de o meu corpo estar pedindo para descansar, tenho que seguir na estrada não posso me dar o luxo agora, de parar uns dias, preciso chegar dentro desse mês ao Alaska, e nada de imprevistos agora. Busco força não sei de onde, mas, consigo rodar além do programado por dia, tenho que dar também os parabéns a “Poderosa” porque não ta nada fácil para ela, estou dando um castigo forte, esses dias a coitada.
 
Preparado para cruzar a penúltima fronteira, o coração já dispara como se fosse à primeira vez, realmente agora, só tenho olhos e pensamentos fixos no Alaska. Programo sempre paradas próximo aos 300 km que tenho por meta diária para rodar, mas, acabo sempre andando mais um pouquinho, e às vezes com sorte, consigo um lugar bom para dormir, outras vezes, caio em cada buraco danado, que chego a me xingar várias vezes.
 
Bem cedo, dei entrada no Canadá foi tudo muito rápido e tranqüilo, agora só falta mais uma fronteira. Engraçado que logo que entrei no Canadá tudo mudou. O clima, o tempo, a paisagens, as estradas, e o bom é que aqui, posso andar no meu limite nas rodovias. A dificuldade também aumenta bastante, basta lembrar o fato dos postos de gasolina do México, aqui é bem parecido. O frio está chegando, mas, ainda está tranqüilo e espero que fique até eu chegar lá.
 
Estou assustado com os preços das coisas por aqui, tudo é bem mais caro do que nos Estados Unidos, fora os campings que são entre 12 a 20 dólares, mas, consigo às vezes acampar nos terrenos das casas. Quanto mais ao norte, o povo se mostra mais solidário ao viajante. O verde do Canadá, realmente é totalmente diferente de qualquer outro que já vi, ao longo da estrada vou me deparando com os primeiros animais.
 
Perto da cidade de Mackezie, cruzei com um filhote de urso negro, nervoso, continuei andando, logo em seguida resolvi fazer o retorno para poder observar melhor, mas não o vi novamente. Até chegar ao posto de gasolina, fiquei pensando se não era minha imaginação viajando ao ver aquele urso preto. Perguntei ao rapaz do posto se naquela região havia ursos negros, e ele me falou que sim, era normal. Então estou certo mesmo, acabei de ver meu primeiro urso e não fotografei.
 
Andei por uns 30 km sem luva e com a máquina pronta para tentar pegar um flash , mas não tive sorte, a única coisa que vi foi uma chuva de granizo no meu lombo, que a cada batida no meu capacete parecia que iria cair o mundo. A ansiedade aumenta, e cada dia que passa para mim se torna mais longo. Essa chegada ao Alaska demora mais que a viagem até aqui. Estou na Highway Alaska, ela me levará até lá, o coração bate até mais forte quando vejo alguns carros com a placa do Alaska, como é bom esta perto desse lugar, a emoção a cada dia se torna mais intensa.
 
As noites começam a demorar a chegar. Para se ter uma idéia, dez horas da noite ainda está claro e com essa diferença não consigo dar inicio ao meu dia às 6 da manhã como costumava fazer, o frio chega pela madrugada e só permite fazer uma coisa, virar para o lado e dormir mais pouco. Só mesmo em Watson Lake fui obrigado acordar as 6 da manhã, acordei e vi em volta da minha barraca Búfalos.
 
Não sabia se saía da barraca ou ficava bem quieto no meu canto para não ter problemas com eles. Pensei comigo: se tiverem que me pegar, vão fazer isso dentro ou fora, então prefiro correr o risco lá fora mesmo, assim, posso observar melhor eles, caso não se irritem comigo. Dei sorte, consegui observar os Búfalos por uns 50 minutos. Mais um dia de emoção, fui por minha placa no parque das placas na cidade de Watson Lake, não podia deixar de registrar isso aqui.
 
Essa tranqüilidade de andar por aqui, no Canadá, está me fazendo muito bem, só escuto o som do motor da minha “Poderosa” e o vento batendo no capacete, as noites curtas me tiram o sono e não poderia ser diferente, estou chegando lá, só escuto falar do Alaska. Descansei na cidade de Whitehorse, capital de Yukon, cidade muito tranqüila com seus povos nativos bem simpáticos. Onde paro, as pessoas tem o prazer de observar a motoka, e só assim também paro para me dedicar um pouco mais a ela, rsrsrs.
 
Costumo parar na estrada para olhar as paisagens e acabo ficando alguns minutos, nessa hora começo a pensar, onde estamos quanto já rodamos e quanto ainda teremos que rodar. Isso para mim é muito importante, porque pudemos juntos (Eu e a Poderosa), mostrar para as pessoas, que o nosso projeto não é impossível, e o Alaska se mostra cada vez mais real. A cada dia passo por estradas diferentes, vejo gente nova e vou aprendo com as pessoas, e elas comigo talvez.
 
Se não fosse a minha dedicação em cima da minha filha (Poderosa), em algumas horas, dias talvez, gostaria de estar em minha casa, sentado com minha família almoçando, mas, escolhi ler um grande capítulo de um livro, aonde neste livro, eu sou o narrador, o personagem e até mesmo o escritor. Então, tenho que trabalhar. A cada dia aprendo a controlar mais a solidão, não é fácil viver cada dia e saber que estou chegando ao ponto em que tanto trabalhei por várias noites nos mapas onde ficava perdido, muitas vezes, mas, isso é muito bom, quero poder chegar lá e falar que o Alaska agora existe para mim.
 
Todos nós temos um Alaska, basta trabalhar para ele aparecer, e ele acaba se tornando real. A emoção toma conta de mim e as palavras, começam a tomar rumos diferentes. Quem diria uma motoka tão humilde enfrentar esse desafio de peito aberto, sem chorar um dia se quer. Pequena e muito valente, hoje a Traxx Sky 110-8 pode falar que rodou as Américas e ensinou a força que tem uma motoka como essa, pequena mais com um coração enorme e que com certeza deixou muitas motos grandes para traz.
 
Não poderia ser diferente ao encontrar a placa tão sonhada, Bem Vindo ao Alaska. Tive que chorar mais uma vez. Que luta foi chegar até aqui, mas, valeu todo sacrifício dos 4900mt de altitude da Bolívia, a febre de quatro dias ao entrar no Peru, os 5 dias tomando banho no mar do Caribe, ficando totalmente assado, os 2 dias preso no Panamá por falta de documento para transitar, e vários outros imprevistos que no final só me fortaleceram.
 
Estou muito emocionado hoje, dia 17 de Agosto de 2007 às 13h30min, com 25800 km rodados em apenas 3 meses e 17 dias,porque depois de passar por 14 países, comemoro a nossa chegada ao Alaska, falo nossa, porque se não tivesse o apoio das mensagens de vocês na minha garupa, seria bem difícil completar esse desafio. Chegamos galera, estamos no Alaska! Parabéns a todos nós, agora, é começar a se preparar para volta.
 
Mas, ainda tenho um desafio, o de subir da cidade de Fairbanks onde estou hoje dia 19 de Agosto, até a cidade de Prundhei Bay, que fica a 800 km em uma estrada onde vou recordar a Ruta 40 da Argentina, totalmente estrada de ripio e cascalho, aonde terei apenas um posto de gasolina no meio disso tudo, mas, vale apena tudo isso para chegar no final da América do Norte e cruzar o Circulo Polar. Mais uma vez peço a todos que estão me acompanhando, para orar por mais esse desafio. Quando retornar de lá, darei mais noticias. Parabéns para todos nós e mais uma vez, muito obrigado a DEUS."

 Ele merece e muito o meu respeito. Saber viver a vida é extremamente importante. Pare de reclamar dos desafios que a vida te coloca, levante a cabeça e perceba que o mundo é enorme e a vida é linda.

Rabugento

2 comentários:

Claudio Oliveira Silva disse...

Ô Flavio, na próxima vez me avisa que eu vou junto... de Mobilete.
Parabéns, você fez o que muita gente quer mas não tem coragem.

Anderson disse...

Verdade Claudio. Muita gente de moto grande não chega nem perto.